Pular para o conteúdo principal

Postagens

Hoje de manhã

Ela sorriu e soltou um riso afetado, num misto de consentimento e temor.  Nada estava claro naquele futuro obscuro que abria suas cortinas a sua frente.  Deixar seu tesouro para trás, por poucas horas que fossem, era como atravessar um portal para um deserto. Mais que isso, para o vazio. E porque o tempo custasse a passar seu coração se afligia. Os olhos controlavam lágrimas de saudade. O tic tac do relógio soava como estacas em seu coração. Mas, o tempo, aquele sábio senhor de passos lentos, tem muitas faces. É também médico talentoso, administrador garboso e torturador impiedoso.

Eu sou a soberba

Dizem que "eu" sou a palavra mais usada nos idiomas do mundo. É só prestar atenção nas conversações que "eu" estou sempre presente, firme e atuante. Para ser sincero, não quero ouvir o que os outros tentam dizer. Afinal, "eu" sou mais "eu" e sou muito mais interessante. Tenho muito a falar. Também não sou do tipo que acredita assim, logo de cara, naquilo que nunca experimentei. Se "eu" não vivi, não deve valer a pena. Ei, fique um pouco mais e deixe que "eu" continue a falar de mim. Você parece ser o melhor tipo de ouvinte. Continue assim: passivo, inerte e indiferente. Quanto mais você esquece de si, mais fortalece a mim. Sim, "eu" sou arrogante, sim. E até a palavra soberba começa com "so", que soa como "sou" e fim

Recarreguem a ira

Em tempos de tecnologia sem fio, a ira é o resultado da falta de bateria nos equipamentos. Viciados em luzinhas, botões e acesso a sabe-se lá que tipo de conteúdo, perdem a cabeça quando a porcentagem cai para 10, 7, 5%. A incapacidade momentânea de espetar o celular, o computador ou a câmera parece durar uma eternidade. O que estão fazendo com o tempo? Para que tanto o que fazer na frente de uma máquina?  A vida é transportada tela a dentro e a vida real perde espaço. A falta de toque, de contato, de estar junto parece não causar agonia. A falta de energia, sim.

Desgastada luxúria

Angel sentia-se nua na presença de parentes. Era uma sensação estranha, desconfortável e fria. Mesmo sob o inverno cortante de 10º, vestida com pesadas vestes dos pés a cabeça, ela se sentia nua. Parecia que aos olhos dos outros, cada camada de roupa era transparente. Só ela se sentia assim. Será que seus pensamentos e sua volúpia poderiam ser adivinhados? Será que no fundo, no fundo, conheceriam sua vida secreta? Quem sabe. Angel pensava enquanto as tias falavam banalidades aos seus ouvidos. E ela ria com o sorriso amarelo de quem está exposto ao ridículo. Queria sair dali. Impotente, tentava esquecer a sensação que os olhos atentos das parentes lhe prestavam. Queria vestir-se de lucidez. Impossível. Estava tão presa àquela sala, quanto estavam seus pensamentos e suas sensações. Sem ter o que fazer, Angel serviu-se de mais uma xícara de café e continuou ali.