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Mostrando postagens com o rótulo Crônica

Desgastada luxúria

Angel sentia-se nua na presença de parentes. Era uma sensação estranha, desconfortável e fria. Mesmo sob o inverno cortante de 10º, vestida com pesadas vestes dos pés a cabeça, ela se sentia nua. Parecia que aos olhos dos outros, cada camada de roupa era transparente. Só ela se sentia assim. Será que seus pensamentos e sua volúpia poderiam ser adivinhados? Será que no fundo, no fundo, conheceriam sua vida secreta? Quem sabe. Angel pensava enquanto as tias falavam banalidades aos seus ouvidos. E ela ria com o sorriso amarelo de quem está exposto ao ridículo. Queria sair dali. Impotente, tentava esquecer a sensação que os olhos atentos das parentes lhe prestavam. Queria vestir-se de lucidez. Impossível. Estava tão presa àquela sala, quanto estavam seus pensamentos e suas sensações. Sem ter o que fazer, Angel serviu-se de mais uma xícara de café e continuou ali.

Na velocidade da Inveja

"Era uma vez uma lebre e uma tartaruga. Um dia elas apostaram uma corrida.  Enquanto a lebre disparava na frente para garantir a vantagem, a tartaruga seguia em seu ritmo, devagar, mas constante.  A lebre, segura da vitória e a poucos passos da linha de chegada resolveu tirar uma soneca enquanto a esperava para humilhar sua rival. A sesta da lebre durou tempo demais e a tartaruga ultrapassou a linha de chegada em primeiro lugar e com vantagem. " Não entendeu o que essa história tem a ver com inveja ? Então, tente se colocar no lugar da lebre.

A Gula ou Fome de vida

– Quem come tão depressa assim não sente o gosto da comida - repetia incansavelmente a mãe de Alfredinho. Ele parecia nem ouvir. Sua voracidade era tamanha que se empanturrava de tudo que podia até a barriga doer. Ah… e como doía. Era uma dor que sua mãe nunca poderia compreender. E para amenizar… ele comia. Sempre fora assim. Já na primeira infância, o leite materno não o supria. Chorava de fome, a criança robusta e corpulenta, de bochechas rosadas e sadias. Os anos foram passando e Alfredinho devorava cada dia com mais vontade. Na escola, além da sua merenda e da dos colegas, o garoto engolia os livros. E tal qual a comida, quanto mais comia, mais fome tinha. Adulto, era compulsivo. Trabalhava, fazia piada, era a alma das festas. Mas estava sempre sozinho. Mentira. Alimentava-se para afastar a solidão. Enchia-se de pizza quando estava estressado. Adorava ler, acompanhado de petiscos e pipoca.  Passava os dias a tentar preencher um vazio interior ocupando a barriga. Sua últi...